Hermann Zapf e suas tipografias

A história da tipografia na primeira metade século XX foi marcada por duas forças ideológicas concomitantes: por um lado a busca por novos métodos, estilos e tecnologias, como a Bauhaus (década de 20) e o Estilo Internacional Suíço (década de 50); e por outro, os movimentos de resgate das tipografias do passado e da tradição tipográfica. Ambas ideologias se opunham à caótica linguagem tipográfica publicitária, que surgiu no fim do século XIX com a Revolução Industrial, seja pelas vias do modernismo geométrico (visando um design neutro, com tipos sem serifa)  seja pelo modernismo lírico, através de releituras de tipografias antigas e da revisitação das formas de escrita manual. (1)

Os ideais de Hermann Zapf sempre coincidiram mais com os movimentos de resgate das formas renascentistas, devido à sua formação e admiração pela caligrafia. E foi com esse objetivo que, entre os anos de 1946 e 1948, projetou a tipografia Palatino.

“A caligrafia é a base de todas as tipografias. Copiar a escritura à mão e converter essas formas em tipos é o primeiro passo. As formas das letras são o resultado deste processo.(2)

palatino

Nomeada em homenagem a Giambattista Palatino, grande calígrafo italiano do século XVI, a tipografia Palatino foi minuciosamente desenvolvida depois de muitos estudos de Zapf com o puncionista August Rosenberger, que a gravou à mão para a fundidora Stempel (pouco tempo depois Zapf teve que readaptar a fonte para o processo de fotocomposição). Palatino foi lançada em 1950 pela Stempel e Linotype, em versões romana e itálica.

Na década de 50, como parte do desenvolvimento do Estilo Internacional como linguagem gráfica, houve um movimento de rejeição às formas geométricas matematicamente construídas que predominaram nos anos 1920 e 1930, e uma busca por um maior refinamento das formas de tipos sem serifa. Em 1954, o designer suíço Adrian Frutiger lançou a sem serifa Univers e suas 21 variações. É nesse contexto que em 1952, entre tantas tipografias sendo desenvolvidas e lançadas em um curto período de tempo, Zapf cria Optima.

optima

Optima é uma sem serifa muito particular, baseada na proporção áurea e inspirada em inscrições do século XV na Basilica di Santa Croce, em Florença. Foi desenvolvida a princípio como uma tipografia para títulos, mas depois teve seu desenho adaptado para uso em texto. Lançada em 1958 pela Stempel, acabou sendo ofuscada pelas contemporâneas Univers e Helvetica, dada a preferência estilística da época.

“O design foi uma sensação imediata, porém controversa. Críticos e designers não sabiam como classificá-la. Optima era uma serifada, sem serifa, ou nada disso? O debate se centrava nas hastes levemente curvas e no forte contraste dos traços. Optima obvimente não tinha serifas, mas tampouco era monótona como uma grotesca do século XIX como a Akzidenz Grotesk, ou uma geométrica sem serifas, como a Futura.” (3)

Hermann Zapf teve um trabalho extremamente prolífico, mas foram Palatino e Optima – e posteriormente a caligráfica Zapfino – que consolidaram seu nome no design de tipografias do século XX. Ambas foram exaustivamente plagiadas por outras fundidoras, comprovando que seu design clássico e ao mesmo tempo atual está além de modismos estilísticos.

Referências

(1) Termos encontrados em: Robert Bringhurst. (2005). Elementos do estilo tipográfico. p.147-148
(2) Zapf en directo. (2004). En: Visual, año 15, no. 111, p. 50.
(3) Paul Shaw (2004). Optimal Optima. Hermann Zapf restores flare to a classic typeface. En: I.D., no. 3 mayo/2004, p. 88-89.

Hermann Zapf, uma breve biografia

Há 2 semanas faleceu Hermann Zapf, um dos grandes mestres da caligrafia e da tipografia atual. A comoção na comunidade tipográfica foi grande, e não é para menos. Ensaiei pra fazer um post de R.I.P. no Facebook, mas acabei deixando pra lá e então surgiu a ideia de recuperar um pequeno artigo que fiz sobre ele para postar aqui no blog. A verdade é que mestres não morrem e, sem sombra de dúvidas o legado de Zapf vai continuar influenciando muita gente.

Vou dividir o artigo em duas partes, a primeira é uma breve biografia, e a segunda será um pouco mais sobre suas fontes.

Hermann Zapf. Fotografia: Heinz-Juergen Gottert/DPA Germany
Hermann Zapf. Fotografia: Heinz-Juergen Gottert/DPA Germany

Hermann Zapf foi um calígrafo e designer de tipos alemão. Nascido em Nuremberg, no ano de 1918, começou a se interessar pela tipografia após visitar uma exposição em memória de Rudolf Koch, também calígrafo, tipógrafo e seu conterrâneo. Logo comprou os livros de Koch (The Art of Writing) e de Edward Johnston (Writing and Illuminating and Lettering) e começou a estudar caligrafia por conta própria.

Mudou-se para Frankfurt, onde começou a trabalhar na gráfica de Paul Koch, filho de Rudolf. Durante esse período, ganhou experiência em lettering e tipografia através do contato com as type foundries D. Stempel AG e Linotype GmbH.

Em 1939 foi enviado à guerra, no entanto conseguiu se manter apenas em serviços internos, atuando como cartógrafo e aproveitando o tempo livre para preencher muitos sketchbooks com desenhos e caligrafia. Quando voltou a Nuremberg, em 1946, começou a dar aulas de caligrafia, porém um ano depois já estava novamente em Frankfurt trabalhando como diretor de arte na Stempel.

Entre outros trabalhos, principalmente como designer de livros, Zapf criou Palatino (1948), uma família tipográfica baseada em seus antigos estudos sobre a forma das letras. Em seguida vieram muitas outras, destacando-se a Melior (1949), Aldus (1953) e Optima (1958). O designer testemunhou e participou de todos os estágios da produção de tipos, do linotipo nos anos 1950 à fotocomposição, até os métodos digitais de hoje em dia.

Hermann-Zapf-optima-1958-stempel
Folha de prova da Optima com anotações de Zapf

Zapf não apenas fez uso das tecnologias disponíveis como também trabalhou buscando novos métodos, sempre pesquisando sobre programas de computador para composição tipográfica visando otimizar seu trabalho como designer de livros. Em 1976, foi convidado pelo Rochester Institute of Technology para configurar uma cadeira especial sobre softwares tipográficos, a primeira do mundo. Nos anos 1980, no RIT, levou suas ideias ainda mais longe, desenvolvendo um ambicioso programa para a melhoria da qualidade de composição tipográfica chamado “hz program”.

Em 1993, David Siegel, que havia trabalhado com Zapf no início dos anos 80, encomendou uma tipografia – de preferência caligráfica – que tivesse um grande número de variações de caracteres para testar “Derrick”, um programa experimental de composição tipográfica baseado na teoria do caos. Zapf então viu a oportunidade de criar uma tipografia a partir de uma caligrafia que havia feito em um sketchbook de 1944.

“Por décadas Zapf se frustrava com as limitações técnicas de tipos que tentam imitar caligrafia. Virtuosa (1952-54), sua primeira tipografia caligráfica, foi uma tentativa de ‘resolver uma script sem traços de ligação diretos… e evitando todos os maiores kerns.’ (…) Mas a capacidade de automaticamente substituir ou misturar caracteres alternativos, swashes e ligaturas permanecia ilusória. Derrick era uma provável resposta.(1) O projeto teve altos e baixos até que Siegel o abandonou. Zapf, então, decidiu levá-lo à Linotype, que lhe deu continuidade, e em 1998 lançou Zapfino.

Já nos anos 2000, como parte de uma iniciativa da Linotype para revisitar suas mais famosas tipografias, Zapf, com a ajuda de Akira Kobayashi, trabalhou no redesign de suas fontes, adaptando-as à tecnologia digital e melhorando seu design. O último projeto em que o designer se envolveu, antes de vir a falecer no dia 4 de junho de 2015, foi a releitura da Zapfino para a escrita árabe, proposta pela designer de tipos libanesa Nadine Chahine.

Assista a esse vídeo para ver Zapf em ação:

Referências
(1) Paul Shaw. (1999). Zapfino. Print Magazine, vol.53 no. 5, p.68, 68b, 348.
Hermann Zapf. (2005) The lifestory of Hermann Zapf. Download em http://download.linotype.com/free/howtouse/ZapfBiography.pdf.
A – Z of type designers. Revista Baseline, no. 30 (2000) p. 51-52.
https://www.fontshop.com/content/hermann-zapf-1918-2015

A magia do alfabeto

Você já parou pra pensar na origem e no significado das letras? Já percebeu, em algum momento, que apesar da infinidade de possibilidades de desenho de um ‘A’, seguimos identificando aquele signo sem ter que pensar duas vezes?

Pois eu já pensei em tudo isso e essa ideia me encanta. Apesar de não ter sido uma inquietude natural (foi preciso chegar na faculdade, num curso de Design, e ter algumas aulas que abririam as portas do mundo tipográfico para mim), continuo intrigada com a História da caligrafia, da tipografia, dos alfabetos e escritas, das milhares de maneiras de representar as palavras e o impacto das formas tipográficas sobre a interpretação e o engajamento do leitor em relação a um texto.

O estudo da caligrafia permite, entre outras coisas, que entendamos a influência das ferramentas utilizadas na escrita sobre o nosso alfabeto. Os traços e limitações das penas planas, pincéis e penas de bico determinaram os fundamentos do desenho das letras como as conhecemos hoje, e sua evolução técnica através dos tempos gerou as inúmeras variações formais de que dispomos hoje em dia.

Johnston_caligrafia_pena

A imagem acima (retirada do livro Writing & Illuminating & Lettering, do Edward Johnston) ilustra muito bem como os ângulos e maneiras com que se manipula a pena influenciam diretamente na espessura dos traços e nas relações de contraste das letras. É daí que vieram as formas que guiam as tipografias que mais usamos para a leitura até hoje.

Neste novo blog quero trazer um pouco mais do universo das letras pra vocês. Vamos trocar idéias sobre caligrafia, tipografia e o que mais for relacionado ao tema. Sejam bem-vindos!