Hoje vou falar um pouco sobre meu projeto tipográfico para a UBA e todos os percalços na hora de fazer uma fonte (sozinha) pela primeira vez. Espero que divulgando tudo isso eu consiga finalmente criar vergonha na cara e terminar este projeto. 😛
A Amelita nasceu da ideia de uma super família que combinasse fontes serifadas e script. Para ‘apimentar’ um pouco o projeto eu resolvi que ela teria também que funcionar bem em tela, para ser uma fonte usada em blogs (olha onde eu fui me meter…). Claro que o tempo de execução do projeto e as exigências da pós-graduação (e as condições humanas de trabalho) não comportavam a criação de uma super família em 4 meses, então comecei, como todos os meus colegas, a partir da versão principal que seria a regular serifada.
Comecei a fazer os primeiros desenhos seguindo mais ou menos a estrutura de outras fontes que funcionavam dentro da limitação tecnológica que eu tinha me imposto, e logo me deparei com a questão ‘mas o que este projeto tem a oferecer que já não tenha sido resolvido de forma melhor?’ Quando começamos um projeto tipográfico em meio aos milhões de outros projetos já lançados nesses 565 anos de história da tipografia ocidental, prender-se ao quesito originalidade pode levar à loucura, e leva um tempinho pra perceber que fazer bem o que já foi feito e ainda dar um toque de personalidade naquilo já é um grande desafio.
Fiz muitas experimentações para tentar fugir do óbvio, expandindo, condensando, baixando e subindo bifurcações, e testando mil serifas, mas sem perder de vista o objetivo principal, que era a boa leitura na tela de computador (em condições bem adversas). Quando chegou a hora de decidir qual caminho seguir, abri mão de algumas serifas e embarquei na ideia de uma fonte semi-serifa, tendo que encarar preconceitos que eu mesma e muita gente tem sobre essa categoria de tipografias.
Foram muitos desafios, principalmente na hora de ver onde colocar serifa e onde tirar, e como resolver as maiúsculas, fui desde a ideia de ter maiúsculas serifadas até umas possibilidades de serifas meio sem sentido haha. Na pós é legal porque a gente tem a oportunidade de trabalhar com muitos mentores, mas isso também dificulta na hora de lidar com tantas opiniões diferentes. E pra finalizar, meu HD pifou 2 dias antes da entrega! Mas enfim, consegui terminar o set de caracteres da regular e agora preciso partir para as outras variações, e vou contando o processo aqui pra vocês. Me mandem mensagens de apoio moral 😉
Ultimamente o interesse pela tipografia só aumenta e muita gente tem me perguntado sobre a pós em Buenos Aires. Na minha última palestra, no Coletivo 334, falei bastante sobre isso e vou tentar resumir um pouco nesse post, para deixar as informações sempre acessíveis.
CDT – Carrera de Diseño de Tipografía
O curso é uma especialização em design de tipografia, com um ano e meio de duração (e mais seis meses de projeto) ministrado na Universidad de Buenos Aires, com aulas 2 vezes por semana (quintas à noite e sábados de manhã). Neste ano estão num esforço para elevar a pós ao nível de mestrado, tendo então a duração de 2 anos. Maiores informações aqui.
Update: O curso agora é um mestrado com 2 anos de duração! As aulas continuam sendo quintas à noite e sábados de manhã, e agora além de criar a sua fonte, você também tem que trabalhar a aplicação da mesma em algum projeto gráfico como parte da entrega final. Acesse o site do curso para saber mais.
A cursada enfatiza dois eixos principais: design de tipografia e produção de conteúdo acadêmico (monografia), e portanto as aulas se dividem entre exercícios práticos e aulas teóricas para fundamentar e desenvolver as habilidades para o design de tipos, e matérias, seminários e discussões (semiótica, linguística, sociologia, teoria do design etc) para embasar o desenvolvimento da monografia. Ambos os eixos vão se desenvolvendo passo a passo de maneira bem didática, aumentando o nível de dificuldade conforme o curso avança. Partimos da caligrafia voltada para a tipografia (visando aprender fundamentos tipográficos como espaçamento, peso, ângulo, contraste etc), para então termos aulas de desenho analítico, observando tipografias já existentes, soluções e aprimorando a técnica do desenho.
Em seguida começamos a desenvolver sistemas tipográficos baseados em parâmetros pré-definidos (por nós mesmos); primeiro fizemos alguns signos (em grupo e orientados por Pablo Cosgaya), depois uma fonte completa (em dupla, orientados por Rubén Fontana), e por último tivemos que criar uma família tipográfica inteira (pelo menos 4 variáveis) individualmente. Neste projeto, a turma se divide em 6 grupos, cada grupo tem um tutor responsável, mas o projeto é individual. Os tutores desta etapa foram Eduardo Tunni, Dario Muhafara, Pablo Cosgaya, Aldo de Losa e Ale Paul.
Aula de caligrafia
Aula de caligrafia
Aula de desenho
Exercício de desenho
Exercício de desenho
Exercício
Visita tipográfica
Visita tipográfica
Fontlab e galletitas
Aula con Ruben
Crítica de trabalhos
Aula de composição tipográfica
Aula de composição tipográfica
Aula de composição tipográfica
Estudando…
Projeto final – Tutor Dario Muhafara
Projeto Final
Fontlab e galletitas
Discutindo os projetos
Mais crítica…
O curso é ideal para quem quer aprender a desenvolver tipografias e ter uma experiência acadêmica. A maior parte dos alunos chega sem nunca ter feito uma fonte e sai com resultados de alta qualidade. O curso é extenso e demanda muito estudo e prática além das aulas, mas é o tempo necessário para reter os ensinamentos e aprender a enxergar tipograficamente. A próxima turma terá início em abril de 2018. Para informações e inscrições mandem e-mail para a coordernadora, Marcela Romero maestriaentipografia@gmail.com
Outros cursos
Tiralinhas – Silvia Cordero
Tiralinhas – Silvia Cordero
Tiralinhas – Silvia Cordero
Lettering – Ale Paul
Lettering – Ale Paul
Lettering – Ale Paul
Letras dibujadas – Silvia Cordero
Letras dibujadas – Silvia Cordero
Um dia de prática no mini quartinho
Brush pen – Silvia Cordero
Algumas pessoas vêem meu trabalho na internet e me perguntam se o curso ensina caligrafia e lettering. Claro que uma coisa alimenta a outra, mas lá não tive aulas específicas de caligrafia expressiva ou lettering propriamente dito, é tudo focado para o design de fontes.
Update:A última turma (2017) teve sim alguns seminários (aulas especiais, como um workshop) de lettering.
Eu aproveitei a estadia em Buenos Aires para fazer outros cursos nesse sentido e para praticar bastante também. Veja abaixo alguns links para os locais que oferecem bons cursos de caligrafia, lettering e ilustração, que são uma opção também para quem busca cursos de curta duração:
Buenos Aires é uma cidade muito rica culturalmente e tem uma ótima qualidade de vida, transporte público eficiente, praças e áreas verdes. Estudar lá é diferente de estudar no Brasil. Pelo menos nas experiências que tive, achei que eles têm visões e métodos de ensino bem distintos do que estamos acostumados. O modo e o custo de vida na cidade vai depender muito do que você escolher, se quer trabalhar lá ou freelar pro Brasil, morar sozinho ou dividir apartamento. Eu economizei bastante antes de ir e fazia alguns freelas pro Brasil para poder me dedicar mais ao curso. Como fui sozinha e voltava pro Brasil com certa freqüência, morei em vários lugares e tive vários tipos de experiências (boas e ruins), mas a gente se joga no mundo pra isso mesmo.
Uma dica que eu dou é resolver logo suas burocracias de visto e diploma e chegar com uma boa reserva de dinheiro pra pagar essas coisas. É algo que pode dar uma certa dor de cabeça. Quem tiver alguma dúvida mais pontual pode entrar em contato comigo 🙂
Update: considere que esse era o cenário nos anos de 2013 e 2014, quando cursei. A economia e a política mudou muito nos dois países ultimamente, então não sei precisar a situação atual.