Hermann Zapf, uma breve biografia

Há 2 semanas faleceu Hermann Zapf, um dos grandes mestres da caligrafia e da tipografia atual. A comoção na comunidade tipográfica foi grande, e não é para menos. Ensaiei pra fazer um post de R.I.P. no Facebook, mas acabei deixando pra lá e então surgiu a ideia de recuperar um pequeno artigo que fiz sobre ele para postar aqui no blog. A verdade é que mestres não morrem e, sem sombra de dúvidas o legado de Zapf vai continuar influenciando muita gente.

Vou dividir o artigo em duas partes, a primeira é uma breve biografia, e a segunda será um pouco mais sobre suas fontes.

Hermann Zapf. Fotografia: Heinz-Juergen Gottert/DPA Germany
Hermann Zapf. Fotografia: Heinz-Juergen Gottert/DPA Germany

Hermann Zapf foi um calígrafo e designer de tipos alemão. Nascido em Nuremberg, no ano de 1918, começou a se interessar pela tipografia após visitar uma exposição em memória de Rudolf Koch, também calígrafo, tipógrafo e seu conterrâneo. Logo comprou os livros de Koch (The Art of Writing) e de Edward Johnston (Writing and Illuminating and Lettering) e começou a estudar caligrafia por conta própria.

Mudou-se para Frankfurt, onde começou a trabalhar na gráfica de Paul Koch, filho de Rudolf. Durante esse período, ganhou experiência em lettering e tipografia através do contato com as type foundries D. Stempel AG e Linotype GmbH.

Em 1939 foi enviado à guerra, no entanto conseguiu se manter apenas em serviços internos, atuando como cartógrafo e aproveitando o tempo livre para preencher muitos sketchbooks com desenhos e caligrafia. Quando voltou a Nuremberg, em 1946, começou a dar aulas de caligrafia, porém um ano depois já estava novamente em Frankfurt trabalhando como diretor de arte na Stempel.

Entre outros trabalhos, principalmente como designer de livros, Zapf criou Palatino (1948), uma família tipográfica baseada em seus antigos estudos sobre a forma das letras. Em seguida vieram muitas outras, destacando-se a Melior (1949), Aldus (1953) e Optima (1958). O designer testemunhou e participou de todos os estágios da produção de tipos, do linotipo nos anos 1950 à fotocomposição, até os métodos digitais de hoje em dia.

Hermann-Zapf-optima-1958-stempel
Folha de prova da Optima com anotações de Zapf

Zapf não apenas fez uso das tecnologias disponíveis como também trabalhou buscando novos métodos, sempre pesquisando sobre programas de computador para composição tipográfica visando otimizar seu trabalho como designer de livros. Em 1976, foi convidado pelo Rochester Institute of Technology para configurar uma cadeira especial sobre softwares tipográficos, a primeira do mundo. Nos anos 1980, no RIT, levou suas ideias ainda mais longe, desenvolvendo um ambicioso programa para a melhoria da qualidade de composição tipográfica chamado “hz program”.

Em 1993, David Siegel, que havia trabalhado com Zapf no início dos anos 80, encomendou uma tipografia – de preferência caligráfica – que tivesse um grande número de variações de caracteres para testar “Derrick”, um programa experimental de composição tipográfica baseado na teoria do caos. Zapf então viu a oportunidade de criar uma tipografia a partir de uma caligrafia que havia feito em um sketchbook de 1944.

“Por décadas Zapf se frustrava com as limitações técnicas de tipos que tentam imitar caligrafia. Virtuosa (1952-54), sua primeira tipografia caligráfica, foi uma tentativa de ‘resolver uma script sem traços de ligação diretos… e evitando todos os maiores kerns.’ (…) Mas a capacidade de automaticamente substituir ou misturar caracteres alternativos, swashes e ligaturas permanecia ilusória. Derrick era uma provável resposta.(1) O projeto teve altos e baixos até que Siegel o abandonou. Zapf, então, decidiu levá-lo à Linotype, que lhe deu continuidade, e em 1998 lançou Zapfino.

Já nos anos 2000, como parte de uma iniciativa da Linotype para revisitar suas mais famosas tipografias, Zapf, com a ajuda de Akira Kobayashi, trabalhou no redesign de suas fontes, adaptando-as à tecnologia digital e melhorando seu design. O último projeto em que o designer se envolveu, antes de vir a falecer no dia 4 de junho de 2015, foi a releitura da Zapfino para a escrita árabe, proposta pela designer de tipos libanesa Nadine Chahine.

Assista a esse vídeo para ver Zapf em ação:

Referências
(1) Paul Shaw. (1999). Zapfino. Print Magazine, vol.53 no. 5, p.68, 68b, 348.
Hermann Zapf. (2005) The lifestory of Hermann Zapf. Download em http://download.linotype.com/free/howtouse/ZapfBiography.pdf.
A – Z of type designers. Revista Baseline, no. 30 (2000) p. 51-52.
https://www.fontshop.com/content/hermann-zapf-1918-2015

Diário de uma fonte – Parte 1

Hoje vou falar um pouco sobre meu projeto tipográfico para a UBA e todos os percalços na hora de fazer uma fonte (sozinha) pela primeira vez. Espero que divulgando tudo isso eu consiga finalmente criar vergonha na cara e terminar este projeto. 😛

A Amelita nasceu da ideia de uma super família que combinasse fontes serifadas e script. Para ‘apimentar’ um pouco o projeto eu resolvi que ela teria também que funcionar bem em tela, para ser uma fonte usada em blogs (olha onde eu fui me meter…). Claro que o tempo de execução do projeto e as exigências da pós-graduação (e as condições humanas de trabalho) não comportavam a criação de uma super família em 4 meses, então comecei, como todos os meus colegas, a partir da versão principal que seria a regular serifada.

sketch

Comecei a fazer os primeiros desenhos seguindo mais ou menos a estrutura de outras fontes que funcionavam dentro da limitação tecnológica que eu tinha me imposto, e logo me deparei com a questão ‘mas o que este projeto tem a oferecer que já não tenha sido resolvido de forma melhor?’ Quando começamos um projeto tipográfico em meio aos milhões de outros projetos já lançados nesses 565 anos de história da tipografia ocidental, prender-se ao quesito originalidade pode levar à loucura, e leva um tempinho pra perceber que fazer bem o que já foi feito e ainda dar um toque de personalidade naquilo já é um grande desafio.

sketch3

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Fiz muitas experimentações para tentar fugir do óbvio, expandindo, condensando, baixando e subindo bifurcações, e testando mil serifas, mas sem perder de vista o objetivo principal, que era a boa leitura na tela de computador (em condições bem adversas). Quando chegou a hora de decidir qual caminho seguir, abri mão de algumas serifas e embarquei na ideia de uma fonte semi-serifa, tendo que encarar preconceitos que eu mesma e muita gente tem sobre essa categoria de tipografias.

abc

Foram muitos desafios, principalmente na hora de ver onde colocar serifa e onde tirar, e como resolver as maiúsculas, fui desde a ideia de ter maiúsculas serifadas até umas possibilidades de serifas meio sem sentido haha. Na pós é legal porque a gente tem a oportunidade de trabalhar com muitos mentores, mas isso também dificulta na hora de lidar com tantas opiniões diferentes. E pra finalizar, meu HD pifou 2 dias antes da entrega! Mas enfim, consegui terminar o set de caracteres da regular e agora preciso partir para as outras variações, e vou contando o processo aqui pra vocês. Me mandem mensagens de apoio moral 😉

final