Afinal, qual é a diferença entre lettering e caligrafia?

Você sabe?

A caligrafia é a escrita com fim em si mesma. É a arte de executar a escrita seguindo modelos caligráficos (existiram vários modelos ao longo da História). Depende de habilidade técnica e prática, pois o produto final da caligrafia é resultado direto das peculiaridades do instrumento e da habilidade manual do calígrafo.

caligrafia

Já o lettering é o ato de desenhar, de traçar letras que sejam adequadas a um fim único e específico, utilizando formas compostas. A ação de desenhar uma letra se desprende das limitações do instrumento utilizado, pois ao traçar os detalhes surge a liberdade para criar outras soluções, que não necessariamente derivem de uma pena caligráfica ou de um modelo de escrita.

lettering

Uma caligrafia pode virar um lettering?

Sim, um lettering pode nascer de uma escrita caligráfica que seja posteriormente retocada e manipulada, manualmente ou pelo computador.

Um lettering pode virar uma caligrafia?

Não. Um lettering pode imitar uma caligrafia, ou seja, um modelo caligráfico, mas por definição ele foi feito a partir do desenho de formas compostas e por isso não será uma caligrafia.

Eu preciso saber caligrafia para fazer lettering?

Não necessariamente. Por se tratar de desenho, basta ter um bom olhar para observar como são as formas das letras e então reproduzí-las. No entanto, tudo o que é relacionado às letras tem origem na caligrafia, por isso é preciso ao menos o conhecimento teórico em relação aos modelos e instrumentos caligráficos para executar um lettering conciso e coerente, mesmo que a intenção do autor seja subverter estes padrões.

E a tipografia?

A tipografia é um conjunto de matrizes de letras reproduzíveis e combináveis entre si. Cada caractere é como uma peça que compomos e usamos para formar o texto, tanto na tipografia tradicional, com tipos móveis, como na tipografia digital. No Brasil, convencionamos a chamar de ‘tipografia’ tudo o que é referente a letras, mas sempre que possível cabe dar o nome correto ao que estamos nos referindo 🙂

Hermann Zapf e suas tipografias

A história da tipografia na primeira metade século XX foi marcada por duas forças ideológicas concomitantes: por um lado a busca por novos métodos, estilos e tecnologias, como a Bauhaus (década de 20) e o Estilo Internacional Suíço (década de 50); e por outro, os movimentos de resgate das tipografias do passado e da tradição tipográfica. Ambas ideologias se opunham à caótica linguagem tipográfica publicitária, que surgiu no fim do século XIX com a Revolução Industrial, seja pelas vias do modernismo geométrico (visando um design neutro, com tipos sem serifa)  seja pelo modernismo lírico, através de releituras de tipografias antigas e da revisitação das formas de escrita manual. (1)

Os ideais de Hermann Zapf sempre coincidiram mais com os movimentos de resgate das formas renascentistas, devido à sua formação e admiração pela caligrafia. E foi com esse objetivo que, entre os anos de 1946 e 1948, projetou a tipografia Palatino.

“A caligrafia é a base de todas as tipografias. Copiar a escritura à mão e converter essas formas em tipos é o primeiro passo. As formas das letras são o resultado deste processo.(2)

palatino

Nomeada em homenagem a Giambattista Palatino, grande calígrafo italiano do século XVI, a tipografia Palatino foi minuciosamente desenvolvida depois de muitos estudos de Zapf com o puncionista August Rosenberger, que a gravou à mão para a fundidora Stempel (pouco tempo depois Zapf teve que readaptar a fonte para o processo de fotocomposição). Palatino foi lançada em 1950 pela Stempel e Linotype, em versões romana e itálica.

Na década de 50, como parte do desenvolvimento do Estilo Internacional como linguagem gráfica, houve um movimento de rejeição às formas geométricas matematicamente construídas que predominaram nos anos 1920 e 1930, e uma busca por um maior refinamento das formas de tipos sem serifa. Em 1954, o designer suíço Adrian Frutiger lançou a sem serifa Univers e suas 21 variações. É nesse contexto que em 1952, entre tantas tipografias sendo desenvolvidas e lançadas em um curto período de tempo, Zapf cria Optima.

optima

Optima é uma sem serifa muito particular, baseada na proporção áurea e inspirada em inscrições do século XV na Basilica di Santa Croce, em Florença. Foi desenvolvida a princípio como uma tipografia para títulos, mas depois teve seu desenho adaptado para uso em texto. Lançada em 1958 pela Stempel, acabou sendo ofuscada pelas contemporâneas Univers e Helvetica, dada a preferência estilística da época.

“O design foi uma sensação imediata, porém controversa. Críticos e designers não sabiam como classificá-la. Optima era uma serifada, sem serifa, ou nada disso? O debate se centrava nas hastes levemente curvas e no forte contraste dos traços. Optima obvimente não tinha serifas, mas tampouco era monótona como uma grotesca do século XIX como a Akzidenz Grotesk, ou uma geométrica sem serifas, como a Futura.” (3)

Hermann Zapf teve um trabalho extremamente prolífico, mas foram Palatino e Optima – e posteriormente a caligráfica Zapfino – que consolidaram seu nome no design de tipografias do século XX. Ambas foram exaustivamente plagiadas por outras fundidoras, comprovando que seu design clássico e ao mesmo tempo atual está além de modismos estilísticos.

Referências

(1) Termos encontrados em: Robert Bringhurst. (2005). Elementos do estilo tipográfico. p.147-148
(2) Zapf en directo. (2004). En: Visual, año 15, no. 111, p. 50.
(3) Paul Shaw (2004). Optimal Optima. Hermann Zapf restores flare to a classic typeface. En: I.D., no. 3 mayo/2004, p. 88-89.

Caligrafia expressiva com tira linhas

Hoje vamos falar um pouco sobre os famosos tira linhas!

00tiralinhas_destaque

Os tira linhas são originalmente instrumentos de desenho para fazer… linhas! Até que um dia alguém resolveu usá-los para caligrafia, e o que se obteve foram gestos mais expressivos e livres, splashes, texturas, etc. A partir disso houve uma experimentação no sentido de descobrir formas alternativas de pena para usar e o efeito que elas podem produzir, e surgiu então a cola pen. Veja nos vídeos a seguir as calígrafas Maria Eugenia Roballos e Francesca Biasetton demonstrando o uso dos tira linhas tradicionais:

[youtube=www.youtube.com/watch?v=0WVBymRLdZI]

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[youtube=www.youtube.com/watch?v=CRL1kfMPvIs]

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A cola pen, derivada dos tira linhas propriamente ditos, tem a superfície de desenho arredondada e uma ponta fina, o que permite fazer traços largos e finos em qualquer direção, e girar a pena enquanto escreve com mais facilidade que uma pena tradicional. Na Argentina são vendidas as plumas Luthis, que são fabricadas com chapas de offset e exploram diversos tamanhos e formatos. Abaixo eu mostro algumas delas (tenho 4 modelos, são 15 no total) e o resultado do traço.

Polillita (mariposinha)

A polillita tem a superfície de escrita quase plana como a de uma pena normal, porém um pouco inclinada e como uma leve curvatura na extremidade oposta à ponta fina. É ideal para fazer traços mais consistentes e alfabetos mais clássicos (pelo menos é o que eu acho, mas com tira linhas cada um faz o uso que achar mais conveniente).

Butterfly

A butterfly é parecida com a polillita mas tem a superfície maior e a face lateral mais reta. Gosto de usar essa pena grande pra fazer letras fora da proporção, ou seja, de altura-x quase igual à largura da pena, pra ficar meio truncado, falhado, desengonçado…

Libélula

A libélula é minha preferida! Ela tem a superfície bem curva, parece uma faquinha, e é bem pequena, criando traços finos e “rasgados”.

Abanico (leque)

O abanico é bem diferente das outras penas, tem a superfície totalmente redonda, permitindo o giro livre da pena. É o mais complicadinho de usar, na minha opinião. Alguns vídeos mostrando o manuseio das penas:

[youtube=www.youtube.com/watch?v=uJiySyEF96Y]

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[youtube=www.youtube.com/watch?v=He2_zg-2q8A]

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Essas penas podem ser compradas em papelarias artísticas e online. Mas também é possível fazê-las em casa, com latinhas de refrigerante, e criar novos formatos.

Como fazer uma cola pen

Material: lata de alumínio, estilete, tesoura, fita adesiva e um lápis, hashi, qualquer coisa que possa ser usada como cabo para a pena

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1. Corte as bordas da latinha

PAP02

2. Corte o que sobrou em pedaços menores PAP03

3. Dobre e corte no formato desejado da pena. Você pode ajustar o formato depois que testar a pena, às vezes precisa fazer um pequeno corte na ponta. PAP04

4. Junte a ponta ao cabo com a fita adesiva. Cuide para não deixar o cabo muito pra cima, gerando uma abertura muito grande na parte inferior da aba. PAP05

Aí é só escrever! As penas mais toscas costumam gerar os efeitos mais legais 🙂 PAP06

Não captou ainda? Então aí vai um videozinho:

[youtube=https://www.youtube.com/watch?v=d6dIW3kD3Dk]

 

PS: No flickr do Volnei Matté tem um álbum com mais tutoriais de outros modelos de pena, inclusive com o molde já preparado para cortar.

Estudar tipografia na Argentina

Ultimamente o interesse pela tipografia só aumenta e muita gente tem me perguntado sobre a pós em Buenos Aires. Na minha última palestra, no Coletivo 334, falei bastante sobre isso e vou tentar resumir um pouco nesse post, para deixar as informações sempre acessíveis.

CDT – Carrera de Diseño de Tipografía

O curso é uma especialização em design de tipografia, com um ano e meio de duração (e mais seis meses de projeto) ministrado na Universidad de Buenos Aires, com aulas 2 vezes por semana (quintas à noite e sábados de manhã). Neste ano estão num esforço para elevar a pós ao nível de mestrado, tendo então a duração de 2 anos. Maiores informações aqui.

Update: O curso agora é um mestrado com 2 anos de duração! As aulas continuam sendo quintas à noite e sábados de manhã, e agora além de criar a sua fonte, você também tem que trabalhar a aplicação da mesma em algum projeto gráfico como parte da entrega final. Acesse o site do curso para saber mais.

A cursada enfatiza dois eixos principais: design de tipografia e produção de conteúdo acadêmico (monografia), e portanto as aulas se dividem entre exercícios práticos e aulas teóricas para fundamentar e desenvolver as habilidades para o design de tipos, e matérias, seminários e discussões (semiótica, linguística, sociologia, teoria do design etc) para embasar o desenvolvimento da monografia. Ambos os eixos vão se desenvolvendo passo a passo de maneira bem didática, aumentando o nível de dificuldade conforme o curso avança. Partimos da caligrafia voltada para a tipografia (visando aprender fundamentos tipográficos como espaçamento, peso, ângulo, contraste etc), para então termos aulas de desenho analítico, observando tipografias já existentes, soluções e aprimorando a técnica do desenho.

Em seguida começamos a desenvolver sistemas tipográficos baseados em parâmetros pré-definidos (por nós mesmos); primeiro fizemos alguns signos (em grupo e orientados por Pablo Cosgaya), depois uma fonte completa (em dupla, orientados por Rubén Fontana), e por último tivemos que criar uma família tipográfica inteira (pelo menos 4 variáveis) individualmente. Neste projeto, a turma se divide em 6 grupos, cada grupo tem um tutor responsável, mas o projeto é individual. Os tutores desta etapa foram Eduardo Tunni, Dario Muhafara, Pablo Cosgaya, Aldo de Losa e Ale Paul.

O curso é ideal para quem quer aprender a desenvolver tipografias e ter uma experiência acadêmica. A maior parte dos alunos chega sem nunca ter feito uma fonte e sai com resultados de alta qualidade. O curso é extenso e demanda muito estudo e prática além das aulas, mas é o tempo necessário para reter os ensinamentos e aprender a enxergar tipograficamente. A próxima turma terá início em abril de 2018. Para informações e inscrições mandem e-mail para a coordernadora, Marcela Romero maestriaentipografia@gmail.com

Outros cursos

Algumas pessoas vêem meu trabalho na internet e me perguntam se o curso ensina caligrafia e lettering. Claro que uma coisa alimenta a outra, mas lá não tive aulas específicas de caligrafia expressiva ou lettering propriamente dito, é tudo focado para o design de fontes.

Update: A última turma (2017) teve sim alguns seminários (aulas especiais, como um workshop) de lettering.

Eu aproveitei a estadia em Buenos Aires para fazer outros cursos nesse sentido e para praticar bastante também. Veja abaixo alguns links para os locais que oferecem bons cursos de caligrafia, lettering e ilustração, que são uma opção também para quem busca cursos de curta duração:

Morar em Buenos Aires

Buenos Aires é uma cidade muito rica culturalmente e tem uma ótima qualidade de vida, transporte público eficiente, praças e áreas verdes. Estudar lá é diferente de estudar no Brasil. Pelo menos nas experiências que tive, achei que eles têm visões e métodos de ensino bem distintos do que estamos acostumados. O modo e o custo de vida na cidade vai depender muito do que você escolher, se quer trabalhar lá ou freelar pro Brasil, morar sozinho ou dividir apartamento. Eu economizei bastante antes de ir e fazia alguns freelas pro Brasil para poder me dedicar mais ao curso. Como fui sozinha e voltava pro Brasil com certa freqüência, morei em vários lugares e tive vários tipos de experiências (boas e ruins), mas a gente se joga no mundo pra isso mesmo.

Uma dica que eu dou é resolver logo suas burocracias de visto e diploma e chegar com uma boa reserva de dinheiro pra pagar essas coisas. É algo que pode dar uma certa dor de cabeça. Quem tiver alguma dúvida mais pontual pode entrar em contato comigo 🙂

Update: considere que esse era o cenário nos anos de 2013 e 2014, quando cursei. A economia e a política mudou muito nos dois países ultimamente, então não sei precisar a situação atual.

A magia do alfabeto

Você já parou pra pensar na origem e no significado das letras? Já percebeu, em algum momento, que apesar da infinidade de possibilidades de desenho de um ‘A’, seguimos identificando aquele signo sem ter que pensar duas vezes?

Pois eu já pensei em tudo isso e essa ideia me encanta. Apesar de não ter sido uma inquietude natural (foi preciso chegar na faculdade, num curso de Design, e ter algumas aulas que abririam as portas do mundo tipográfico para mim), continuo intrigada com a História da caligrafia, da tipografia, dos alfabetos e escritas, das milhares de maneiras de representar as palavras e o impacto das formas tipográficas sobre a interpretação e o engajamento do leitor em relação a um texto.

O estudo da caligrafia permite, entre outras coisas, que entendamos a influência das ferramentas utilizadas na escrita sobre o nosso alfabeto. Os traços e limitações das penas planas, pincéis e penas de bico determinaram os fundamentos do desenho das letras como as conhecemos hoje, e sua evolução técnica através dos tempos gerou as inúmeras variações formais de que dispomos hoje em dia.

Johnston_caligrafia_pena

A imagem acima (retirada do livro Writing & Illuminating & Lettering, do Edward Johnston) ilustra muito bem como os ângulos e maneiras com que se manipula a pena influenciam diretamente na espessura dos traços e nas relações de contraste das letras. É daí que vieram as formas que guiam as tipografias que mais usamos para a leitura até hoje.

Neste novo blog quero trazer um pouco mais do universo das letras pra vocês. Vamos trocar idéias sobre caligrafia, tipografia e o que mais for relacionado ao tema. Sejam bem-vindos!