Afinal, qual é a diferença entre lettering e caligrafia?

Você sabe?

A caligrafia é a escrita com fim em si mesma. É a arte de executar a escrita seguindo modelos caligráficos (existiram vários modelos ao longo da História). Depende de habilidade técnica e prática, pois o produto final da caligrafia é resultado direto das peculiaridades do instrumento e da habilidade manual do calígrafo.

caligrafia

Já o lettering é o ato de desenhar, de traçar letras que sejam adequadas a um fim único e específico, utilizando formas compostas. A ação de desenhar uma letra se desprende das limitações do instrumento utilizado, pois ao traçar os detalhes surge a liberdade para criar outras soluções, que não necessariamente derivem de uma pena caligráfica ou de um modelo de escrita.

lettering

Uma caligrafia pode virar um lettering?

Sim, um lettering pode nascer de uma escrita caligráfica que seja posteriormente retocada e manipulada, manualmente ou pelo computador.

Um lettering pode virar uma caligrafia?

Não. Um lettering pode imitar uma caligrafia, ou seja, um modelo caligráfico, mas por definição ele foi feito a partir do desenho de formas compostas e por isso não será uma caligrafia.

Eu preciso saber caligrafia para fazer lettering?

Não necessariamente. Por se tratar de desenho, basta ter um bom olhar para observar como são as formas das letras e então reproduzí-las. No entanto, tudo o que é relacionado às letras tem origem na caligrafia, por isso é preciso ao menos o conhecimento teórico em relação aos modelos e instrumentos caligráficos para executar um lettering conciso e coerente, mesmo que a intenção do autor seja subverter estes padrões.

E a tipografia?

A tipografia é um conjunto de matrizes de letras reproduzíveis e combináveis entre si. Cada caractere é como uma peça que compomos e usamos para formar o texto, tanto na tipografia tradicional, com tipos móveis, como na tipografia digital. No Brasil, convencionamos a chamar de ‘tipografia’ tudo o que é referente a letras, mas sempre que possível cabe dar o nome correto ao que estamos nos referindo 🙂

Aprendendo lettering online

A internet é uma coisa maravilhosa. Praticamente tudo o que você quiser aprender você pode encontrar em um vídeo, um texto, uma dica, ou pode perguntar para alguém. Nesse post eu vou passar pra vocês algumas impressões de cursos online de lettering que eu assisti. Acredito que quem tem a veia autodidata e realmente se envolve com as aulas pode aprender muito com esses vídeos. É claro que nada substitui o contato com um profissional e uma aula ao vivo, e para aprender sozinho você precisa elevar a sua auto-crítica ao máximo, mas sempre é um bom começo.

Os cursos abaixo são do Skillshare. Lá você pode assistir qualquer aula (em inglês) durante 14 dias sem pagar nada. Se quiser continuar assistindo eles cobram uma taxa 10 dólares por mês. Todos eles dão umas dicas de Illustrator também, seja para finalizar ou desenhar.

The First Steps of Hand-Lettering: Concept to Sketch (Lettering I)
The Final Steps of Hand-Lettering: Color & Texture (Lettering II)

Esses dois cursos da Mary Kate McDevitt dão uma introdução geral sobre o desenho de letras, algumas dicas para não errar coisas básicas e uma proposta de processo criativo. Ela também mostra como finaliza seus trabalhos sem perder as características do desenho, mantendo as texturas e imperfeições.

Lettering for Designers: One Drop Cap Letterform at a Time

Essa aula da Jessica Hische é legal para conhecer o processo criativo dela. Ela não explica muito sobre a parte de desenho, mas mostra todo o processo para a criação de uma capitular e dá o be-a-bá sobre vetorização de letras (onde colocar os pontos, como regular as curvas etc). Também fala sobre como criticar o próprio trabalho.

Exploring Letterforms through Monograms

Will Pay mostra todo o processo de criação de um monograma. Ele foca bastante na questão de inspirar-se em coisas da sua cidade, do seu ambiente, em objetos e em desenvolver o olhar para as formas de letras que você pode encontrar em todo lugar. Além disso ele testa e vai fazendo um brainstorm de diversas possibilidades de estilo, adornos e detalhes que podemos agregar para criar letras mais originais. E depois mostra alguns truques de vetorização no Illustrator.

Lettering Made Simple: Efficient Methods for Custom Type

Se você acha que essa coisa de desenhar à mão não dá certo pra você, mas ainda assim quer entrar na onda do lettering, tem esse curso com o Brandon Rike, onde ele mostra como manipular uma fonte para chegar em um lettering.

Los secretos dorados del lettering

Quem tem dificuldade no inglês pode tentar as aulas da Martina Flor, em espanhol. O curso dela é super completo, indo desde onde encontrar inspiração até como digitalizar o desenho e se auto criticar, passando pelas técnicas de desenho que ela usa. Custa 35 dólares e está no site Domestika, outra fonte muito boa de cursos online, todos em espanhol.

Update: Acaba de sair o curso da Martina Flor em inglês pelo Skillshare. Aproveitem! 🙂

Caligrafia expressiva com tira linhas

Hoje vamos falar um pouco sobre os famosos tira linhas!

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Os tira linhas são originalmente instrumentos de desenho para fazer… linhas! Até que um dia alguém resolveu usá-los para caligrafia, e o que se obteve foram gestos mais expressivos e livres, splashes, texturas, etc. A partir disso houve uma experimentação no sentido de descobrir formas alternativas de pena para usar e o efeito que elas podem produzir, e surgiu então a cola pen. Veja nos vídeos a seguir as calígrafas Maria Eugenia Roballos e Francesca Biasetton demonstrando o uso dos tira linhas tradicionais:

[youtube=www.youtube.com/watch?v=0WVBymRLdZI]

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[youtube=www.youtube.com/watch?v=CRL1kfMPvIs]

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A cola pen, derivada dos tira linhas propriamente ditos, tem a superfície de desenho arredondada e uma ponta fina, o que permite fazer traços largos e finos em qualquer direção, e girar a pena enquanto escreve com mais facilidade que uma pena tradicional. Na Argentina são vendidas as plumas Luthis, que são fabricadas com chapas de offset e exploram diversos tamanhos e formatos. Abaixo eu mostro algumas delas (tenho 4 modelos, são 15 no total) e o resultado do traço.

Polillita (mariposinha)

A polillita tem a superfície de escrita quase plana como a de uma pena normal, porém um pouco inclinada e como uma leve curvatura na extremidade oposta à ponta fina. É ideal para fazer traços mais consistentes e alfabetos mais clássicos (pelo menos é o que eu acho, mas com tira linhas cada um faz o uso que achar mais conveniente).

Butterfly

A butterfly é parecida com a polillita mas tem a superfície maior e a face lateral mais reta. Gosto de usar essa pena grande pra fazer letras fora da proporção, ou seja, de altura-x quase igual à largura da pena, pra ficar meio truncado, falhado, desengonçado…

Libélula

A libélula é minha preferida! Ela tem a superfície bem curva, parece uma faquinha, e é bem pequena, criando traços finos e “rasgados”.

Abanico (leque)

O abanico é bem diferente das outras penas, tem a superfície totalmente redonda, permitindo o giro livre da pena. É o mais complicadinho de usar, na minha opinião. Alguns vídeos mostrando o manuseio das penas:

[youtube=www.youtube.com/watch?v=uJiySyEF96Y]

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[youtube=www.youtube.com/watch?v=He2_zg-2q8A]

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Essas penas podem ser compradas em papelarias artísticas e online. Mas também é possível fazê-las em casa, com latinhas de refrigerante, e criar novos formatos.

Como fazer uma cola pen

Material: lata de alumínio, estilete, tesoura, fita adesiva e um lápis, hashi, qualquer coisa que possa ser usada como cabo para a pena

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1. Corte as bordas da latinha

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2. Corte o que sobrou em pedaços menores PAP03

3. Dobre e corte no formato desejado da pena. Você pode ajustar o formato depois que testar a pena, às vezes precisa fazer um pequeno corte na ponta. PAP04

4. Junte a ponta ao cabo com a fita adesiva. Cuide para não deixar o cabo muito pra cima, gerando uma abertura muito grande na parte inferior da aba. PAP05

Aí é só escrever! As penas mais toscas costumam gerar os efeitos mais legais 🙂 PAP06

Não captou ainda? Então aí vai um videozinho:

[youtube=https://www.youtube.com/watch?v=d6dIW3kD3Dk]

 

PS: No flickr do Volnei Matté tem um álbum com mais tutoriais de outros modelos de pena, inclusive com o molde já preparado para cortar.

5 passos para escolher uma tipografia

Como escolher uma tipografia dentre tantas opções, ou como evitar usar sempre as mesmas? A fonte usada em um texto é tão importante quanto seu conteúdo, e é preciso analisar sua personalidade e legibilidade para saber como aplicá-la corretamente. Fiz esse texto pensando em quais seriam as questões mais básicas na hora de selecionar quais tipografias usar, tendo como base alguns artigos e um pouco da minha experiência.

1. Conheça o conteúdo

A primeira coisa a fazer é considerar qual é o assunto e o tom do texto. É uma notícia, uma receita, uma piada, um aviso, a sinalização de aeroporto? Cada texto pede um estilo tipográfico diferente, assim como cada ambiente pede um tipo de mobiliário (ou poltronas, segundo Stephen Coles) ou cada momento pede uma roupa mais apropriada (Smashing Magazine). Você não iria à academia com um vestido de gala, iria? A palavra chave aqui é adequação. Mas como saber qual é tipografia adequada?

2. Observe seu tipo

diagrama-fontes
Avalie se as qualidades formais da tipografia correspondem ao que seu conteúdo pede. Uma forma simples de testar isso é atribuir adjetivos ao assunto e buscar uma tipografia que de certa forma converse com esses adjetivos. Considere também o meio onde o seu conteúdo será publicado para avaliar se a tipografia tem boa leitura no suporte que você está usando, no tamanho que você precisa e de acordo com as dimensões da página, linha ou coluna propostas. Pesquise caraterísticas históricas se sua intenção é remeter a uma determinada época ou local.

3. Verifique o set de caracteres

caracteres

Especialmente se estiver usando uma tipografia grátis. Não tem por que usar uma tipografia que não tem os acentos, símbolos e pontuação que você vai precisar. Veja também se a tipografia tem as opções de variações que você pretende usar (light, bold, itálica, condensada, etc).

4. Conheça seu tipo

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Captura de tela do site da Bold Monday, mostrando a indicação de uso (editorial) para uma das tipografias que eles desenvolveram.

Já tem algumas opções em mente? Vá atrás da história dessas tipografias. Quem é o autor, qual foi o ano de lançamento, para qual função ela foi pensada, a partir de quais referências? Uma rápida busca pelo MyFonts ou no site da type foundry te ajuda a responder essas perguntas e a assegurar o uso adequado da tipografia escolhida.

5. Pesquise referências

Vale também dar uma olhadinha em outros projetos que já usaram essa tipografia, ou projetos do mesmo segmento que você está tratando. No site Fonts In Use é possível buscar imagens de tipografias sendo usadas, de acordo com esses critérios. Você pode observar o seu funcionamento, descobrir se tal tipografia já está muito associada a determinado objetivo ou conceito, e decidir se vai reproduzir ou contrastar com esse discurso.

A intenção desses passos é reduzir gradualmente o número de opções e facilitar a escolha, por isso é importante começar analisando o conteúdo e determinando o estilo tipográfico apropriado. E então, dentro deste estilo, encontrar um fonte que represente melhor a familiaridade ou originalidade que seu conteúdo pedir.

Mais sobre o tema:

Type Walk

Em 2013 eu fiz uma viagem pra Nova Iorque que coincidiu com alguns eventos legais de tipografia. Um deles foi um tour tipográfico com Paul Shaw, conhecido como Type Walk, pelas ruas de Tribeca (alguns meses antes ele tinha feito o tour por São Paulo, pelo tpc10, mas não pude ir). Sair fotografando a tipografia das ruas é um ótimo exercício de observação e de entendimento histórico, dessas fotos costumam sair novas teses e até novos projetos tipográficos. Resolvi resgatar algumas imagens do HD pra compartilhar com vocês!

Fachadas de edifícios antigos
Durante um certo período nos Estados Unidos era comum fazer esses letreiros nos topos dos prédios com o nome da construtora e o ano de construção. Nada melhor para identificar quais tipografias eram usadas na época! Além disso sempre tem umas soluções de composição bem inusitadas…

Ghost Signs
Ghost signs são marcas de propagandas antigas nas laterais dos prédios que já estão quase invisíveis. Haviam várias no bairro que visitamos, e eu acho super legal quando descubro algumas por São Paulo.

Neon
No meio do caminho tinha uma loja de letreiros em neon e luminosos, sensacional! Olhem esse M gigante de acrílico!!

Outras fachadas, pilastras, hidrantes, murais…

PS:

  1. Coincidentemente, essa semana foi publicado no Tipografeed um link para esse post que faz uma retrospectiva de 2014 através de fotos de letreiros, genial! <3
  2. Além do Type Walk, o Paul Shaw também coordena o Legacy of Letters, um tour tipográfico de uma semana por várias cidades italianas somado a alguns workshops de caligrafia e letterpress. Sonho!
  3. Aproveitem para revirar o site dele que tem dezenas de artigos e histórias interessantes 🙂