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Diatipo 2014

O Diatipo deste ano foi considerado por muita gente o melhor de todos os tempos. O evento cresceu, ganhou destaque e superou as expectativas dos participantes. Com um peso pesadíssimo entre os palestrantes – Matthew Carter – e muitas histórias importantes da tipografia no Brasil e no mundo, ficou difícil escolher qual foi a melhor palestra.

O evento pra mim começou na quinta-feira, no workshop da Laura Serra. A proposta era desenhar uma determinada letra a partir de instruções aleatórias que incluíam o estilo, partes de alguma planta e duas cores. Ela nos apresentou a técnica de um pincel bem fininho e longo, o schlepperpinsel, ideal pra fazer uns floreios bem fluidos. O resultado geral foi impressionante, todo mundo saiu da sua zona de conforto e tivemos muitos desenhos lindos! E no fim, as letras eram para formar uma frase (veja fotos do workshop).

Na manhã de sexta-feira participei do Type Critique com o Matthew Carter, levei meu humilde projetinho pra ele ver! Ele me corrigiu algumas coisas e foi um fofo, uma honra que ele tenha visto a minha primeira fonte solo 🙂

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Alexandre Wollner. Foto do evento.

À tarde começaram as palestras e o primeiro convidado foi Alexandre Wollner. Ele falou sobre alguns projetos, fez piada sobre o logo fálico da Cinemateca Brasileira e representou o design moderno brasileiro. Disponível online.

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Tony de Marco. Foto do evento.

Em seguida Tony de Marco fez uma apresentação em ordem cronológica de quase todas as suas fontes e projetos. Tivemos de certa forma um panorama do cenário pós-moderno experimental dos anos 1990 e 2000. Confira os trabalhos mais recentes no site de sua type foundry Just in Type.

Gustavo Ferreira. Foto do evento.

Gustavo Ferreira. Foto do evento.

Logo depois tivemos Gustavo Ferreira mostrando suas fontes-código. Depois de duas palestras que representavam a história do século XX na tipografia no Brasil, Gustavo nos deu uma amostra do que pode ser o futuro. Pude fazer seu curso de Python no início do ano e entender melhor como funciona a linguagem e o que se pode fazer com ela, além de começar um projetinho tipográfico nos mesmos moldes (infelizmente o projeto está na gaveta pois minha cabeça ainda dói só de pensar em programação hehe). O conteúdo da palestra pode ser visto neste link.

Stephen Coles. Foto do evento.

Stephen Coles. Foto do evento.

Após o intervalo, chegou a vez de Stephen Coles. Editor do blog Typografica e do projeto Fonts in Use, Stephen é filho de designers e cresceu numa casa cercada de objetos de design. Este fator e a obsessão por classificações – primeiro de pássaros, depois de tipografias – o levaram a se tornar consultor de tipografias, entendendo do uso e da classificação de fontes. Sua palestra propôs uma analogia entre tipografias e cadeiras, onde cada qual tem exemplares que dependendo do design, do conforto e da necessidade de uso, se adequa melhor a um propósito. Foi uma palestra muito rica em termos educacionais quanto ao uso e seleção de tipografias. Assista.

Matthew Carter foi o último a subir no palco neste primeiro dia de palestras. Considerado o type designer mais importante do nosso tempo e criador de muitas das tipografias mais usadas e conhecidas do mundo, este lord simpaticíssimo apresentou 4 de seus projetos que considera mais ousados. Mantinia, baseado em letras cavadas em pedra por durante o Renascimento por Andrea Mantegna; Walker, projeto para a revista do Walker Art Center em Minneapolis; o projeto institucional e sinalético para a Universidade de Yale; e Van Lanen, uma tipografia que nasceu em 2002 para ser gravada em madeira e impressa no Hamilton Wood Type. Leiam esse post sobre a Van Lanen e assistam a palestra.

Rodolfo Capeto

Rodolfo Capeto

O segundo dia começou bem cedo com a palestra de Rodolfo Capeto, professor da ESDI que criou a família tipográfica para o dicionário Houaiss, quando o Brasil ainda brincava de fazer fontes experimentais. Ele falou sobre a história da tipografia no Brasil desde os tempos de colônia e deu uma pincelada sobre seus trabalhos.

Logo após, Marcos Mello trouxe um bate papo com alguns senhores (Pérsio Guimarães, George Dimitrov e Darci Callegari – Jacaré) sobre os tempos áureos da tipografia e linotipia. Foi uma conversa descontraída e bem humorada com os homens por trás das máquinas, passando pelo processo de trabalho daquela época até as dificuldades com os censores durante a ditadura. Achei muito interessante pois muito se fala e se estuda sobre as técnicas de impressão passadas, mas poucas vezes humanizamos a situação até que nos dispomos a executá-las ou a ouvir as histórias de quem o faz.

Trocamos de protagonistas e a conversa seguiu com o assunto mulheres na tipografia. Cecilia Consolo, Priscila Farias e Fernanda Martins falaram um pouco de suas trajetórias na organização de eventos, documentação, pesquisa tipográfica e design de tipos, e debateram essa tal questão sobre mulheres na tipografia, se o gênero influencia em alguma coisa, etc (sabemos que não). Pelo título do debate o papo poderia ter assumido um viés mais político. Ou seria mais plausível que cada uma delas, dada sua importância no cenário tipográfico brasileiro, tivesse o mesmo tempo que os outros palestrantes para falar de seus projetos profissionais.

No final a Marina Chaccur comentou sobre esse artigo da Raquel Pelta que fala sobre a posição das mulheres no design no decorrer da História (leiam!), e eu recomendo também essa matéria com a argentina Griselda Flesler sobre o mesmo assunto. Tem também o site BioGráficas, que tenta fazer um compendio das designers latino-americanas.

Fernando Díaz chegou depois do almoço para nos contar sobre a tipografia no Uruguai e o trabalho que ele vem fazendo com design de tipos na TipoType e as atividades na Sociedad Tipográfica de Montevideo. Foi uma palestra leve e inspiradora.

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Novo cenário no Type Design. Da esquerda para a direita: Diego, Rodrigo, Crystian, Daniel e Henrique.

Em seguida tivemos uma mesa sobre o novo cenário do type design no Brasil. Crystian Cruz comandou a mesa fazendo perguntas a Henrique Beier (Harbor Type), Daniel Sabino (Blackletra), Diego Maldonado (Just in Type) e Rodrigo Saiani (Plau). Os 4 discutiram a possibilidade de viver de type design no Brasil (sim, é possível) e questões que surgem com a nova profissão como regulamentação, licenças etc.

Para finalizar, Ramiro Espinoza trouxe a história e toda a investigação em torno de seu projeto ‘Krul’, uma fonte baseada nos letreiros de fachadas de café de Amsterdam criados nos anos 1940 pelo letrista Jan Willem Joseph Wisser, num processo de pesquisa, resgate e recuperação das formas de sua caligrafia.

O que faz do Diatipo um grande evento não são somente as palestras e a enorme contribuição gerada ao conhecimento tipográfico, mas também o grande encontro que se promove entre aficionados da tipografia de todo Brasil. É o momento para se conhecer e rever as faces por trás de tantas letras que vemos e admiramos pelo Facebook, Instagram e outras redes, e para interagir de verdade com os profissionais que nos inspiram (sem limites e sem fronteiras). Por isso, aguardo ansiosamente o próximo, deixo um beijo a todos que conheci esse ano e parabenizo a organização por mais um Diatipo impecável!

(Não tirei selfie com o Matthew Carter :()

* Fotos do primeiro dia gentilmente roubadas do álbum oficial.

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